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Temperatura ideal

Temperatura ideal

para Fatinha

Chovia e ventava. Ela chegava no trabalho e nem dava bom dia. Também não tirava as roupas de frio.

Brisa com som e ela seguia de casaco e calça, encolhida, sem um bom dia porque detestava hipocrisia.

Ar parado e temperatura alta ainda no meio da manhã, ela mantinha as roupas no corpo e o bom dia em casa.

Mormaço. Idem.

Quando as paredes do prédio suaram, as pessoas derreteram e o mundo esperava o fim dos tempos, ela deu bom dia e estava doida pra comer um brigadeiro naquele dia perfeito.

Gustavo Burla

Beijo de língua

Beijo de língua

Que língua bonita.

O palito ficou muito tempo na boca e a lanterna investigou com minúcia a garganta, quando pôde falar já não se lembrava da inflexão do comentário, se com intenção estética, fisiológica ou libidinosa. A conversa mudou de rumo e o relacionamento foi imediato. Nem tempo de pedir em namoro houve. Cinema, restaurante, cama e dá-lhe língua. Lambidas, laços, ires e vires por todos os lugares. Havia uma fascinação muscular ali.

Tempo de apresentar o namoro à família também não houve, o cadáver foi encontrado sem língua antes dele reparar que a frase no consultório tinha inflexão gastronômica.

Gustavo Burla

Esqueça Pedro não, te ama

Esqueça Pedro não, te ama

Para Virgínia

Já havia tentado quase tudo. Os búzios. O tarô. O baralho cigano. Havia visitado cartomantes. Quiromantes. Necromantes. E também cartomantes quiromantes necromantes que entre um rei de espadas e uma linha da vida e uma ajudinha do além também faziam a pequena cortesia de ler a borra deixada em sua xícara de café. Acompanhava o horóscopo. Encomendara seu mapa astral. Fizera suas revoluções solares dos últimos cinco anos. Calculara sua sinastria amorosa com pelo menos três interesses românticos diferentes. Comprava comida chinesa às sextas-feiras somente para receber de brinde um biscoito da sorte.

Só ainda não tinha experimentado o prometido pelo anúncio com o qual se deparara ao acaso na internet. Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Doutora em Linguística. Faço revisão de textos acadêmicos. Leio sua sorte em vírgulas.

Um pouco intrigada (embora não tanto quanto esperançosa) decidiu marcar uma consulta. Sem velas ou incensos na saleta que mais parecia uma bagunçada biblioteca a vidente sacudiu o pacotinho de vírgulas sobre um texto despontuado e uma chuva de pequeninas e pretinhas luas minguantes desabou aleatoriamente sobre a página branca. 

— Desenvolvi este método a partir da inspiração vibracional de meus alunos. Eles têm um dom místico para a aleatoriedade — explicou a profetiza. — Percebi corrigindo suas redações. 

Não prestou muita atenção à explicação. Não enquanto seu destino se tornava legível em uma única frase que se destacava no longo texto à sua frente: “Esqueça, Pedro não te ama”. O coração apertou. O estômago deu uma reviravolta triste. E a mão trêmula e sem controle acabou por dar um peteleco involuntário na folha de papel. O esbarrão fez com que a ínfima virgulazinha saltasse assustada duas palavras para a direita e lhe desse uma ordem inversa. Uma que atestava que ele a amava, sim, com todas as vírgulas que houvesse pelo caminho, e, que, portanto, esquecê-lo não estava entre as alternativas. 

Quando o encontrou, à noite, teve a certeza de que nenhum outro método divinatório funcionava tão bem. 

Táscia Souza