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Encaixotado

Encaixotado

Os amigos foram avisados: preciso de caixas para esvaziar meu apartamento. Senão não caibo mais aqui.

As caixas eram, por óbvio, para encaixotar coisas que não lhe serviam: roupas não usadas, objetos que perderam o sentido ou a serventia, livros já lidos para serem doados, discos disponíveis nas plataformas digitais e que não precisavam mais ser guardados. 

O aviso, no caso, foi um pedido prontamente atendido. Ao longo de meses. O colega que assinava o clube de vinhos, ficava com as garrafas e lhe doava a embalagem da transportadora. A namorada, que semanalmente recebia em casa legumes e verduras fresquinhos do hortifruti orgânico do bairro, separava o caixote de papelão da entrega, às vezes ainda com uma folha de alface desgarrada e esquecida. E até caixinhas de pasta de dente a mãe juntava, lembrando que o filho colecionava um tanto inútil de miudezas. 

Foram tantos os meses, porém, que caixas de papelão de todos os tamanhos possíveis, em vez de organizadoras da tralha que deveria colocar para fora, foram se somando à quinquilharia. Embaixo da mesa de jantar, ao lado da geladeira, bloqueando o guarda-roupa, atravancando o caminho para a cozinha e causando um tropeço a cada tentativa de beber água na madrugada. Não havia um espaço sequer sem um monte de caixas vazias empilhando-se desde o chão.

Quando não conseguiu entrar em casa porque a pilha colocada atrás da porta de entrada desmoronou e impediu-o de abri-la, percebeu que era ele quem não se encaixava mais.  

Táscia Souza

Temperatura ideal

Temperatura ideal

para Fatinha

Chovia e ventava. Ela chegava no trabalho e nem dava bom dia. Também não tirava as roupas de frio.

Brisa com som e ela seguia de casaco e calça, encolhida, sem um bom dia porque detestava hipocrisia.

Ar parado e temperatura alta ainda no meio da manhã, ela mantinha as roupas no corpo e o bom dia em casa.

Mormaço. Idem.

Quando as paredes do prédio suaram, as pessoas derreteram e o mundo esperava o fim dos tempos, ela deu bom dia e estava doida pra comer um brigadeiro naquele dia perfeito.

Gustavo Burla

Beijo de língua

Beijo de língua

Que língua bonita.

O palito ficou muito tempo na boca e a lanterna investigou com minúcia a garganta, quando pôde falar já não se lembrava da inflexão do comentário, se com intenção estética, fisiológica ou libidinosa. A conversa mudou de rumo e o relacionamento foi imediato. Nem tempo de pedir em namoro houve. Cinema, restaurante, cama e dá-lhe língua. Lambidas, laços, ires e vires por todos os lugares. Havia uma fascinação muscular ali.

Tempo de apresentar o namoro à família também não houve, o cadáver foi encontrado sem língua antes dele reparar que a frase no consultório tinha inflexão gastronômica.

Gustavo Burla