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Pensamento

Pensamento

A gente tinha frequentemente a mesma discussão: como funciona o pensamento humano? Ele defendia que a mente pensava por imagens; eu, por palavras. Quando ele imaginava fogo, o que via eram as labaredas subindo, ou uma flecha incendiária a riscar o ar até acertar o alvo e consumi-lo pelas chamas. Eu soletrava a palavra fogo, fo-go, f-o-g-o, experimentava o som dos fonemas, a forma como cada um se moldava na minha língua, e era isso, esse conjunto abstrato de letras e sílabas, que me fazia arder. Até os sonhos eram experiências distintas: os dele, cinema mudo expressionista; os meus, epopeia homérica em mil e duzentos versos hexâmetros e vinte e quatro cantos.

Só concordávamos com a tortuosidade disso. E com a vontade de, ao menos por um segundo, tela preta ou página branca, só atirar o pensamento a esmo, até ele se extinguir.

Táscia Souza

Caiu do céu

Caiu do céu

para Marcos Araújo

Saía do trabalho quando viu a bolinha verde rolando pela calçada. Caído da bela árvore que ornava a passagem, o caroço foi para o bolso do trabalhador e ali repousou por alguns dias, até ser colocada para lavar.

Rodou pelo bolso com todos os produtos químicos e a hélice da máquina, ficou tonto na centrifugação e sob o sol de fim de tarde começou a secar no varal.

Na manhã de domingo, ressaca ardendo como o sol a pino, o trabalhador foi esticar os braços enquanto esquentava a água para o café e descobriu uma árvore diferente no quintal. Uma árvore de calça.

Gustavo Burla

Coelho branco

Coelho branco

Criança quer ganhar ovo de coelho na Páscoa desde o século XVI, e o coelho junto. Minha Alice ganhou o dela e tratava como filho ou melhor amigo, não sei explicar. Brincava o dia todo e só não dormia com ele porque mostrei a quantidade de cocô que ficava na casinha de manhã. Despedia quando ia pra aula e voltava correndo pra parceria.

O tempo passou e a amizade cresceu, assim como o coelho, branco como um alvejante. Foi numa tarde de verão, com chuva torrencial, que esqueci o bicho no quintal. Quando olhei pela janela, parecia coelho de aula de genética. Quando corri atrás dele, estava todo escuro. Passei pano, escova, mão e nada: encardido.

Quando Alice chegou da escola e jogou a mochila no sofá perguntando pelo coelho, disse que a máquina estava acabando de bater.

Gustavo Burla