Category Archives: Uncategorized

Feito bala soft

Feito bala soft

Ela é quietinha, diziam. Calada e mansinha assim mesmo, diziam. Diziam: diga alguma coisa dura, menina, palavras não são de morder. Testou o desafio uma vez no ônibus, a caminho da escola. Em vez de triturar letras com os dentes e simplesmente engolir, experimentou chupar uma frase inteirinha, sem mastigar, saboreando sua doçura ácida devarinho. Não se lembra bem se foi um solavanco do ônibus ou não, mas de repente um predicado entalou-se em sua garganta. Não consigo respirar, não disse. Acho que vou morrer, não disse. Não disse: agora mesmo que não consigo dizer mais nada. Só ficou roxa, roxa, chiando de um jeito assustador. A mãe se apavorou. Os outros passageiros também se apavoraram. A mãe desceu do ônibus puxando-a pela mão. Os outros passageiros colaram suas testas no vidro da janela para ver a mãe sacudindo-a e apertando-a e desesperando-se até que fossem um borrão sem ar a distância. Não viram quando o naco de oração desagarrou-se da glote e desceu arranhando, impulsionado por instinto de sobrevivência e saliva. Não ouviram quando o que sobrou na língua foi gosto de suspiro aliviado e silêncio. O roxo aos poucos deixou o rosto e os verbos imperativos demais deixaram de ser sobremesa. Se fosse para ser obrigada a falar a partir de então, que fossem apenas coisinhas macias. 

Táscia Souza

Toda madrugada

Toda madrugada

Exatamente às 4h20 da madrugada ele acordava, olhava o relógio e levantava para beber água. Da janela da cozinha via as luzes dos vizinhos de perto e de longe, reconhecia as que ficavam sempre acesas, percebia as diferenças nas outras, sabia distinguir entre elas em cada noite da semana. Porque toda madrugada arrastava pontualmente a insônia até a cozinha, enchia e esvaziava o copo d’água, observava a vizinhança, ouvia os sons da noite e voltava a dormir. Toda madrugada isso acontecia. Acordava e olhava o relógio: sempre 4h20. Levantava, bebia, via, ouvia e dormia. Toda, mas toda madrugada, por anos, sem exceção. Até que se perguntou por que isso acontecia? Sem resposta, desligou o despertador.

Gustavo Burla

Sem tempo, irmão

Sem tempo, irmão

O decreto publicado no diário oficial do município estabelecia que, a partir daquela data — embora, por coerência, não houvesse dia, mês ou ano na publicação —, a noção de tempo estaria abolida dos limites da cidade, restando apenas o espaço como conceito físico-geográfico a determinar as relações. Distâncias como uma meia horinha de caminhada e fica a cinco minutinhos daqui foram proibidas e, em vez do brado de hora do almoço ao meio-dia para chamar a meninada que se afobava atrás do pique, as mães passaram a ter que gritar das janelas que a refeição teria lugar no sol de meio do céu. Das crianças passou-se a comemorar não o primeiro aniversário, mas o primeiro passo de metro que conseguissem dar. E nos velórios o desejo de paz eterna teve de ser substituído pelo de um descanso pacífico na imensidão. Até na igreja o sacristão calou o sino e, igualmente sem referência ou propósito, os galos de todos os quintais e sítios desaprenderam a cantar. Sempre virou por toda parte e São Nunca, o padroeiro, tornou-se o Santo de Lugar Algum. 

Táscia Souza