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Altura da queda

Altura da queda

Da sacada do 37° andar passara horas da semana admirando as pessoas na rua. Percebia comportamentos e ritmos diferentes conforme dia e horário, ouvia buzinas e músicas ou vozes e motores, percebia relações e associações que se pareciam formigas. Em dias de passeatas, balançara bandeira, gritara ou pensara em jogar ovos. Pensava: quanto tempo eles demorariam para chegar até lá?

A rua foi se esvaziando até o dia em que silenciou. Passou a ouvir pássaros ao longe, o telefone do vizinho do outro lado da rua, a chuva quando vinha da parte de trás do apartamento e antes surpreendia. Lembrou-se do ovo.

Buscou um e jogou no meio da rua. Plaft! Ouviu o barulho, viu a pequena mancha sobre o asfalto. No dia seguinte fez de novo. Plaft! E no outro dia também e também. Plaft! Plaft! Uma dúzia.

Será que a água faria desenhos diferentes no asfalto? Chuá! Um dia e outro e mais outros. Chuá… O barulho mudava também. Coisas se quebrando teriam acústicas diferentes?

Jogou um copo. Crash! Em outro dia mais um e no seguinte em outro horário. Crashs diferentes. E ao maior? Como se comportaria?

Pegou o microondas estragado que usava de estante e arremessou, ouvindo o som inesperado de que a quarentena havia acabado.

Gustavo Burla

Cena 2

Cena 2

“[…] nosso amor é tudo”, ele disse. E sentada com as mãos entre as pernas, senti meus olhos se voltarem para minhas mãos, queria ver o filme que minha amiga me indicou, pensei. E suas mãos seguiram as minhas. Suas mãos suadas enlaçaram minhas mãos geladas e ficamos assim, olhos baixos e mãos nas mãos. O silêncio reconfortante que encheu o ambiente se esvaziou quando ele recomeçou a falar. “Eu queria te dizer que… com meus olhos ainda nas mãos, comecei a me perguntar: eu tinha alguma coisa na geladeira? Não lembrei de passar no mercado. Será que eu tinha lembrado de fechar a janela do quarto dele, hoje de manhã? De manhã tinha sol, mas agora está caindo o mundo.

Repassei a manhã: acordei, tomei banho, fiz café. Enquanto secava o cabelo, tomei o café. Tirei o lixo (porque ele nunca tira o lixo), tranquei a porta, desci as escadas. E a janela? Não consigo lembrar da janela… Sentia suas mãos apertarem ainda mais as minhas. “MERDA!”, eu gritei levantando a cabeça. “Eu sei que fiz merda!”, ele me disse. Meu olhar agora parado, vidrava seus olhos que baixavam em direção às mãos. Ele sabia que eu não tinha escutado nada do que ele disse? Retirei minhas mãos das suas. Vendo a chuva lá fora, ambas suavam um suor frio e nervoso. Tentando entender a merda, levantei seu rosto agora inchado. E para sair do escuro da dúvida que crescia em mim, disse “tudo bem, eu também fiz merda”.

Com gestos precisos, ele seca as lágrimas com as costas das mãos. Eu tento um abraço, mas ele rejeita meus braços abertos. Endireita a postura encostando as costas contra o encosto da cadeira e cruza as pernas. Com um olhar cínico pergunta “você me traiu, também?”. E sorrindo para a ironia pensei não, esqueci a janela do seu quarto aberta.

Tassiana Frank

No bar

No bar

Era uma quinta-feira chuvosa, resolvi parar num barzinho e ouvir uma apresentação do recital de violão do meu professor.

Não conhecia ninguém e decidi sentar-me à mesa ao lado do músico. Como não bebo, pedi água e fiquei degustando aos goles quando, de repente, vi tudo rodando. Suor frio escorria pelo meu rosto e a face começou a ruborizar. Um sentimento de raiva aflorou e comecei a quebrar tudo.

Tentaram me prender, me segurar, mas minha força era tanta que derrubei muitas pessoas. A ira foi indo embora e o choro surgiu ininterruptamente. Até que uma pessoa apareceu e me levou dali para uma praça.

Me acalmei daquelas variadas emoções e o senhor que me acolheu explicou que colocaram algo na minha água.

Resolvi me despedir do senhor e agradecer-lhe. Segui o caminho de volta ao bar e retomei meu lugar ao lado do músico. Fiquei envolvida pela melodia, que encheu minha alma de encantamento.

Sheyla Mattos

Texto elaborado na oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.