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No bar

No bar

Era uma quinta-feira chuvosa, resolvi parar num barzinho e ouvir uma apresentação do recital de violão do meu professor.

Não conhecia ninguém e decidi sentar-me à mesa ao lado do músico. Como não bebo, pedi água e fiquei degustando aos goles quando, de repente, vi tudo rodando. Suor frio escorria pelo meu rosto e a face começou a ruborizar. Um sentimento de raiva aflorou e comecei a quebrar tudo.

Tentaram me prender, me segurar, mas minha força era tanta que derrubei muitas pessoas. A ira foi indo embora e o choro surgiu ininterruptamente. Até que uma pessoa apareceu e me levou dali para uma praça.

Me acalmei daquelas variadas emoções e o senhor que me acolheu explicou que colocaram algo na minha água.

Resolvi me despedir do senhor e agradecer-lhe. Segui o caminho de volta ao bar e retomei meu lugar ao lado do músico. Fiquei envolvida pela melodia, que encheu minha alma de encantamento.

Sheyla Mattos

Texto elaborado na oficina “Arquétipos e criação de personagens” realizada no Palavre-se, Tenetehara, agosto de 2019.

Pensamento

Pensamento

A gente tinha frequentemente a mesma discussão: como funciona o pensamento humano? Ele defendia que a mente pensava por imagens; eu, por palavras. Quando ele imaginava fogo, o que via eram as labaredas subindo, ou uma flecha incendiária a riscar o ar até acertar o alvo e consumi-lo pelas chamas. Eu soletrava a palavra fogo, fo-go, f-o-g-o, experimentava o som dos fonemas, a forma como cada um se moldava na minha língua, e era isso, esse conjunto abstrato de letras e sílabas, que me fazia arder. Até os sonhos eram experiências distintas: os dele, cinema mudo expressionista; os meus, epopeia homérica em mil e duzentos versos hexâmetros e vinte e quatro cantos.

Só concordávamos com a tortuosidade disso. E com a vontade de, ao menos por um segundo, tela preta ou página branca, só atirar o pensamento a esmo, até ele se extinguir.

Táscia Souza

Caiu do céu

Caiu do céu

para Marcos Araújo

Saía do trabalho quando viu a bolinha verde rolando pela calçada. Caído da bela árvore que ornava a passagem, o caroço foi para o bolso do trabalhador e ali repousou por alguns dias, até ser colocada para lavar.

Rodou pelo bolso com todos os produtos químicos e a hélice da máquina, ficou tonto na centrifugação e sob o sol de fim de tarde começou a secar no varal.

Na manhã de domingo, ressaca ardendo como o sol a pino, o trabalhador foi esticar os braços enquanto esquentava a água para o café e descobriu uma árvore diferente no quintal. Uma árvore de calça.

Gustavo Burla