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Filhos

Filhos

Um dia vi um filme americano de suspense em que o vilão, depois de fazer tudo o que fazem os vilões de um filme de suspense, morre. Na continuação, um grupo de jovens se vê às voltas com um terror do mesmo tipo e quem é o assassino? O amigo que tem o nome do vilão+filho, algo como vilãoson.

Um dia parei para comprar uma cachaça em Touros e falei que era para o meu pai. O vendedor falou que ia gravar um vídeo para o meu pai e perguntou o nome dele. Disse que era Eduardo e o vendedor falou que era meu irmão, se chamava Edson.

Um dia conheci um rapaz chamado Tinderson…

Gustavo Burla

Feito bala soft

Feito bala soft

Ela é quietinha, diziam. Calada e mansinha assim mesmo, diziam. Diziam: diga alguma coisa dura, menina, palavras não são de morder. Testou o desafio uma vez no ônibus, a caminho da escola. Em vez de triturar letras com os dentes e simplesmente engolir, experimentou chupar uma frase inteirinha, sem mastigar, saboreando sua doçura ácida devarinho. Não se lembra bem se foi um solavanco do ônibus ou não, mas de repente um predicado entalou-se em sua garganta. Não consigo respirar, não disse. Acho que vou morrer, não disse. Não disse: agora mesmo que não consigo dizer mais nada. Só ficou roxa, roxa, chiando de um jeito assustador. A mãe se apavorou. Os outros passageiros também se apavoraram. A mãe desceu do ônibus puxando-a pela mão. Os outros passageiros colaram suas testas no vidro da janela para ver a mãe sacudindo-a e apertando-a e desesperando-se até que fossem um borrão sem ar a distância. Não viram quando o naco de oração desagarrou-se da glote e desceu arranhando, impulsionado por instinto de sobrevivência e saliva. Não ouviram quando o que sobrou na língua foi gosto de suspiro aliviado e silêncio. O roxo aos poucos deixou o rosto e os verbos imperativos demais deixaram de ser sobremesa. Se fosse para ser obrigada a falar a partir de então, que fossem apenas coisinhas macias. 

Táscia Souza

Toda madrugada

Toda madrugada

Exatamente às 4h20 da madrugada ele acordava, olhava o relógio e levantava para beber água. Da janela da cozinha via as luzes dos vizinhos de perto e de longe, reconhecia as que ficavam sempre acesas, percebia as diferenças nas outras, sabia distinguir entre elas em cada noite da semana. Porque toda madrugada arrastava pontualmente a insônia até a cozinha, enchia e esvaziava o copo d’água, observava a vizinhança, ouvia os sons da noite e voltava a dormir. Toda madrugada isso acontecia. Acordava e olhava o relógio: sempre 4h20. Levantava, bebia, via, ouvia e dormia. Toda, mas toda madrugada, por anos, sem exceção. Até que se perguntou por que isso acontecia? Sem resposta, desligou o despertador.

Gustavo Burla