Category Archives: Uncategorized

Esqueça Pedro não, te ama

Esqueça Pedro não, te ama

Para Virgínia

Já havia tentado quase tudo. Os búzios. O tarô. O baralho cigano. Havia visitado cartomantes. Quiromantes. Necromantes. E também cartomantes quiromantes necromantes que entre um rei de espadas e uma linha da vida e uma ajudinha do além também faziam a pequena cortesia de ler a borra deixada em sua xícara de café. Acompanhava o horóscopo. Encomendara seu mapa astral. Fizera suas revoluções solares dos últimos cinco anos. Calculara sua sinastria amorosa com pelo menos três interesses românticos diferentes. Comprava comida chinesa às sextas-feiras somente para receber de brinde um biscoito da sorte.

Só ainda não tinha experimentado o prometido pelo anúncio com o qual se deparara ao acaso na internet. Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Doutora em Linguística. Faço revisão de textos acadêmicos. Leio sua sorte em vírgulas.

Um pouco intrigada (embora não tanto quanto esperançosa) decidiu marcar uma consulta. Sem velas ou incensos na saleta que mais parecia uma bagunçada biblioteca a vidente sacudiu o pacotinho de vírgulas sobre um texto despontuado e uma chuva de pequeninas e pretinhas luas minguantes desabou aleatoriamente sobre a página branca. 

— Desenvolvi este método a partir da inspiração vibracional de meus alunos. Eles têm um dom místico para a aleatoriedade — explicou a profetiza. — Percebi corrigindo suas redações. 

Não prestou muita atenção à explicação. Não enquanto seu destino se tornava legível em uma única frase que se destacava no longo texto à sua frente: “Esqueça, Pedro não te ama”. O coração apertou. O estômago deu uma reviravolta triste. E a mão trêmula e sem controle acabou por dar um peteleco involuntário na folha de papel. O esbarrão fez com que a ínfima virgulazinha saltasse assustada duas palavras para a direita e lhe desse uma ordem inversa. Uma que atestava que ele a amava, sim, com todas as vírgulas que houvesse pelo caminho, e, que, portanto, esquecê-lo não estava entre as alternativas. 

Quando o encontrou, à noite, teve a certeza de que nenhum outro método divinatório funcionava tão bem. 

Táscia Souza

E nunca mais usou óculos

E nunca mais usou óculos

O grau aumentava exponencialmente e ele já temia a renovação da carteira. Orou, fez mandingas, dobrou o dízimo (vigézimo?) e foi fazer o exame.

Sentado diante da cartela com letras e números, prestes a ter os círculos de ferro com buraquinhos apoiados no nariz, ouviu o chamado. A secretária abriu delicadamente a porta requisitando o oftalmologista para um esclarecimento.

Como viu funcionar em um filme, o paciente correu até a cartela de letras e leu o nome do fabricante, no canto inferior esquerdo, em letrinhas miúdas.

Lentes no lugar, aparelho regulado no grau, disse as palavras miúdas e saiu de lá sem receita, sem óculos, sem precisar comprar lentes de contato de tempos em tempos.

Pegou o carro, a família e foram viajar para comemorar.

Gustavo Burla

A última aglomeração

A última aglomeração

Na impossibilidade de receber os amigos com os quais costumeiramente compartilhava festas, resolveu se reencontrar com aqueles que haviam ficado perdidos no tempo. Estava ali o garotinho sardento de nome Emanuel, ainda com a mesma cara de criança travessa, sempre responsável pelas artes que a mãe descobria. E estava a bonita menina Luísa, em cujo rostinho de porcelana havia feito um arranhão permanente, pelo qual molhara os babados do vestido dela suplicando desculpas. E estava também o Sr. Medo, que o pai insistira para que fizesse seu ouvinte, porque, contanto que não a paralisasse, poderia lhe soprar bons conselhos.

Foi ele quem lhe sorriu quando engoliu o último pedaço de ar e se despediu dos companheiros imaginários da infância. 

Táscia Souza