Author Archives: hupokhondria

Lugar de terapia é na cozinha

Lugar de terapia é na cozinha

Dito e feito: todas as angústias, dores, raivas, alegrias, incertezas jogava na cozinha. Ralava com ódio um queijo, dava um ponto carinhoso no ganache e as cebolas choravam quando eram picadas.

No pequeno café em que trabalhava, os quitutes vinham com gostos diferentes do que apontava o cardápio. Um mesmo bolo fazia gargalhar num dia e afundar em depressão no outro.

No governo Bolsonaro o café fechou e a culpa foi dele.

Gustavo Burla

Estudo aplicado sobre os usos modais do verbo dar

Estudo aplicado sobre os usos modais do verbo dar

Tudo o que posso dar é minha palavra. Ou talvez sejam palavras, essas que dei pra anotar a esmo e pras quais dei de inventar de dar outros sentidos quando todo sentido já se (per)deu. Meu sono demora a dar as caras pensando que loucura é essa que deu no mundo, pensando que nó é esse que dá na cabeça, pensando nessa merda toda que tem se dado com a gente, pensando que bicho me dá de meter a palavra merda no meio de um estudo linguístico sério, mas perdão é a língua inteira que tenho pra dar. É o mesmo repetitivo pensamento que dá de frente com tudo de ruim que deu no noticiário enquanto a previsão do tempo promete mais uma vez, apesar do frio, que vai dar sol. É o mesmo repetitivo pensamento que dá voltas pelas outras voltas que a gente dava pelas ruas, no café que só dava pra (não) tomar bem rápido nos pequenos intervalos dados pelo tempo, nas pequenas pausas dadas pela vida, essa vida cá-dentro-lá-fora que nem sempre parece dar pra viver, mas que a gente segue vivendo mesmo assim. É o mesmo repetitivo pensamento que dá um curto circuito dentro da gente, que faísca nos sorrisos que poderíamos ter dado e que não demos, que cintila nos abraços que poderíamos ter dado e que não demos, que se incendeia nas palavras que poderiam ter sido dadas e que não foram durante cada conversa que (nos) dava voltas — e elas ainda dão —, sempre dando em nada e nunca dando de fato aonde deveriam dar. A não ser é claro na única confissão que dá pra fazer: de que às vezes dá uma saudade danada, de que às vezes dá um desespero tremendo, de que todo dia a única notícia que se quer dada pelos jornais é de que já dá pra gente se ver de novo. Se der. Quando der.

Táscia Souza

Complexo de Van Gogh

Complexo de Van Gogh

Banho é lugar de boas ideias, foi sob o chuveiro que ela nasceu. Vinha de uma exaustão de bobagens, cansado de redes sociais, exausto de discussões encerradas com chavões. Parou de discutir, largou as redes e entendeu que o ser humano precisava estudar mais antes de digitar.

E acabou a pandemia. Os meses de tranquilidade em casa se transformaram em mesas de bar, com o teclado virando boca e as pessoas se mantendo as mesmas. Não ir? Fugir ao encontro? Covardia.

No banho entrou água no ouvido e achou a solução. Parou de lavar as orelhas, começou a empurrar a cera pra dentro e até o bocejo passou a conter. Foi ficando surdo. Saudavelmente surdo. Sorria ao chegar, falava e respondia o óbvio sem ouvir os outros e saía certo de que era um dos mais queridos em todos os encontros.

Gustavo Burla