Author Archives: hupokhondria

Nado represado

Nado represado

Cresceu ouvindo a mãe dizer “não vá nadar na represa, menino!” e nunca foi, até que saiu escondido numa manhã de domingo. Entrou com cuidado, percebeu a tranquilidade e até mergulhou. Água calma, paradinha, gostosa, limpa que servia toda a cidade. E antes de entrar nos canos! Que pureza. Boiou cuspindo água pra cima, como um geiser. Nadou e bebeu e nadou mais um pouco e foi correndo pra casa, onde já chegou seco, ninguém percebeu onde tinha ido. Depois precisou de muitos dias bebendo água corrente até conseguir fazer xixi novamente.

Gustavo Burla

Esqueça Pedro não, te ama

Esqueça Pedro não, te ama

Para Virgínia

Já havia tentado quase tudo. Os búzios. O tarô. O baralho cigano. Havia visitado cartomantes. Quiromantes. Necromantes. E também cartomantes quiromantes necromantes que entre um rei de espadas e uma linha da vida e uma ajudinha do além também faziam a pequena cortesia de ler a borra deixada em sua xícara de café. Acompanhava o horóscopo. Encomendara seu mapa astral. Fizera suas revoluções solares dos últimos cinco anos. Calculara sua sinastria amorosa com pelo menos três interesses românticos diferentes. Comprava comida chinesa às sextas-feiras somente para receber de brinde um biscoito da sorte.

Só ainda não tinha experimentado o prometido pelo anúncio com o qual se deparara ao acaso na internet. Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Doutora em Linguística. Faço revisão de textos acadêmicos. Leio sua sorte em vírgulas.

Um pouco intrigada (embora não tanto quanto esperançosa) decidiu marcar uma consulta. Sem velas ou incensos na saleta que mais parecia uma bagunçada biblioteca a vidente sacudiu o pacotinho de vírgulas sobre um texto despontuado e uma chuva de pequeninas e pretinhas luas minguantes desabou aleatoriamente sobre a página branca. 

— Desenvolvi este método a partir da inspiração vibracional de meus alunos. Eles têm um dom místico para a aleatoriedade — explicou a profetiza. — Percebi corrigindo suas redações. 

Não prestou muita atenção à explicação. Não enquanto seu destino se tornava legível em uma única frase que se destacava no longo texto à sua frente: “Esqueça, Pedro não te ama”. O coração apertou. O estômago deu uma reviravolta triste. E a mão trêmula e sem controle acabou por dar um peteleco involuntário na folha de papel. O esbarrão fez com que a ínfima virgulazinha saltasse assustada duas palavras para a direita e lhe desse uma ordem inversa. Uma que atestava que ele a amava, sim, com todas as vírgulas que houvesse pelo caminho, e, que, portanto, esquecê-lo não estava entre as alternativas. 

Quando o encontrou, à noite, teve a certeza de que nenhum outro método divinatório funcionava tão bem. 

Táscia Souza

Demandas

Demandas

para Zedu

Bastava chegar ao trabalho, trocar de roupa, colocar o crachá e começava: José, já enviou o memorando? José, cadê o documento? José, preciso de um texto pra ontem! José, pega isso pra mim no arquivo? José, pode me ajudar nessa mudança? José, você fez a relação que pedi? José, temos reunião às 16h. José, me passa aquela informação de ontem. José, ainda tem café na cozinha? José, semana que vem chega o programa novo. José, essa tabela precisa ser transformada em gráfico. José, ligou para a… qual o nome dela? José, conseguiu o…? José, sobre aquele… José…! José…

Um dia trocou de roupa e colocou o sobrenome no crachá. Sentou e trabalhou em paz.

Gustavo Burla