Category Archives: Hupokhondriakós

Nado represado

Nado represado

Cresceu ouvindo a mãe dizer “não vá nadar na represa, menino!” e nunca foi, até que saiu escondido numa manhã de domingo. Entrou com cuidado, percebeu a tranquilidade e até mergulhou. Água calma, paradinha, gostosa, limpa que servia toda a cidade. E antes de entrar nos canos! Que pureza. Boiou cuspindo água pra cima, como um geiser. Nadou e bebeu e nadou mais um pouco e foi correndo pra casa, onde já chegou seco, ninguém percebeu onde tinha ido. Depois precisou de muitos dias bebendo água corrente até conseguir fazer xixi novamente.

Gustavo Burla

Demandas

Demandas

para Zedu

Bastava chegar ao trabalho, trocar de roupa, colocar o crachá e começava: José, já enviou o memorando? José, cadê o documento? José, preciso de um texto pra ontem! José, pega isso pra mim no arquivo? José, pode me ajudar nessa mudança? José, você fez a relação que pedi? José, temos reunião às 16h. José, me passa aquela informação de ontem. José, ainda tem café na cozinha? José, semana que vem chega o programa novo. José, essa tabela precisa ser transformada em gráfico. José, ligou para a… qual o nome dela? José, conseguiu o…? José, sobre aquele… José…! José…

Um dia trocou de roupa e colocou o sobrenome no crachá. Sentou e trabalhou em paz.

Gustavo Burla

O portal

O portal

Fazia tempo que desconfiava que em sua casa habitava também um portal dimensional. A princípio suspeitara que sua localização fosse um dos pisos quadriculados do banheiro, porque era lá que grampos costumavam desaparecer assim que os soltava do cabelo. E não adiantava ajoelhar-se no chão e vasculhar cada centímetro, às vezes munida de uma lanterna. O grampo que ora existira de repente não existia mais, ao menos não ali, como que sorvido para outro lugar.

Aos poucos, porém, percebeu que o portal migrava pelos cômodos. Às vezes se abria no tampo da mesa de estudos, de onde tragava tampas de caneta bic e clipes de papel. Em outras, escancarava-se dentro da máquina de lavar ou da gaveta de roupas íntimas, nas quais pés de meia despareados desesperavam-se solitários sem seus iguais. E havia ainda as ocasiões em que o portal se transformava em buracos de minhoca, quando um elástico de cabelo ou uma nota de dinheiro desaparecidos do fundo da bolsa ressurgiam meses depois, misteriosamente, no bolso da calça jeans. 

Só ainda não soubera explicar — e isso estava em investigação — em que momento, em vez de sugá-la, o portal é que fora parar dentro de sua cabeça, levando embora suas memórias. 

Táscia Souza