Category Archives: Táscia Souza

Com todos os ites que se possam imaginar.

O portal

O portal

Fazia tempo que desconfiava que em sua casa habitava também um portal dimensional. A princípio suspeitara que sua localização fosse um dos pisos quadriculados do banheiro, porque era lá que grampos costumavam desaparecer assim que os soltava do cabelo. E não adiantava ajoelhar-se no chão e vasculhar cada centímetro, às vezes munida de uma lanterna. O grampo que ora existira de repente não existia mais, ao menos não ali, como que sorvido para outro lugar.

Aos poucos, porém, percebeu que o portal migrava pelos cômodos. Às vezes se abria no tampo da mesa de estudos, de onde tragava tampas de caneta bic e clipes de papel. Em outras, escancarava-se dentro da máquina de lavar ou da gaveta de roupas íntimas, nas quais pés de meia despareados desesperavam-se solitários sem seus iguais. E havia ainda as ocasiões em que o portal se transformava em buracos de minhoca, quando um elástico de cabelo ou uma nota de dinheiro desaparecidos do fundo da bolsa ressurgiam meses depois, misteriosamente, no bolso da calça jeans. 

Só ainda não soubera explicar — e isso estava em investigação — em que momento, em vez de sugá-la, o portal é que fora parar dentro de sua cabeça, levando embora suas memórias. 

Táscia Souza

Translação

Translação

Pensei: tudo bem. Pensei: um ano não é muita coisa. Pensei: um ano são só 365 dias e seis horas em torno do sol. E são só 12,36 ciclos lunares. E são só 12 centímetros de crescimento capilar absoluto, sendo que uma parte disso é de pontas duplas e ressecadas e que precisam ser cortadas, de modo que, em termos relativos, o cabelo nem cresce tanto assim. Pensei: um ano pode até ser muito de um parto a um passo, mas é um grandíssimo nada do septuagésimo nono inverno até o octogésimo verão — a não ser, é claro, pela perspectiva de ser vacinado mais rápido. Pensei que então eu poderia conviver com a ideia de adiar nosso primeiro encontro por um ano, esse grande piscar de olhos de um ano inteiro. Que poderia trancar-me por dentro da porta fechada da minha casa numa segunda-feira do meio de março e abri-la na terça-feira em que esse gesto completasse seu primeiro aniversário e só aí, um ano depois, finalmente esbarrar em você. Pensei que você sorriria e diria que tinha esperado esse ano inteiro para me conhecer, mas que tudo bem assim porque um ano não é muita coisa e são só 365 dias e seis horas em volta do sol e só 12,36 ciclos lunares, o que é bem pouco pelo tanto de arrebóis e luas cheias que ainda iríamos ver juntos. Mas agora penso que é de novo uma segunda-feira do meio de março. E penso que estou novamente trancada porta de casa adentro. E penso que, se eu abrir a porta na terça — se, apesar de todas as recomendações contrárias, eu abrir a porta na terça —, a gente talvez, de qualquer jeito, não se esbarre mesmo por aí, enfim. Porque, penso, um ano são também quase 280 mil mortos e nunca saberei se algum deles era você. 

Táscia Souza

A mulher estranha

A mulher estranha

Tem uma mulher estranha na minha casa. Às vezes a vejo do lado de fora, sobretudo à noite. Acendo a luz — da cozinha, do quarto, da sala — e lá está ela me encarando pelos vidros das portas das sacadas e da janela. Noutras vezes, porém, ela não se limita ao exterior e me segue pelos cantos. Dou de cara com ela no banheiro, quando acordo, e levo um susto porque não estava esperando encontrar com alguém ainda de olhos inchados, antes mesmo de escovar os dentes. Ela me segue no chuveiro, e me observa nua do outro lado do box. E é perplexa que a vejo também nua e me constranjo, como se eu é que tivesse invadido sua privacidade, sem licença. Ela fiscaliza das torneiras minhas mãos ensaboadas e das colheres me segreda confissões e censuras. Atravesso o pequeno corredor, observando seus pés tropeçarem pelos quadros apoiados no chão, e fico aflita com a possibilidade de que ela quebre os vidros das molduras com um chute e que se corte. Se me sento ao computador, sua silhueta de sombra me encara de frente, pouco nítida mas vigilante, como numa videoconferência com sinal ruim. E mesmo se pego o celular simplesmente para olhar as horas, é quase como se adivinhasse seus olhos verdes por trás do verde-mar da minha proteção de tela, a única coisa que parece ainda ter proteção aqui.

Táscia Souza