Category Archives: Gustavo Burla

São.

Nado represado

Nado represado

Cresceu ouvindo a mãe dizer “não vá nadar na represa, menino!” e nunca foi, até que saiu escondido numa manhã de domingo. Entrou com cuidado, percebeu a tranquilidade e até mergulhou. Água calma, paradinha, gostosa, limpa que servia toda a cidade. E antes de entrar nos canos! Que pureza. Boiou cuspindo água pra cima, como um geiser. Nadou e bebeu e nadou mais um pouco e foi correndo pra casa, onde já chegou seco, ninguém percebeu onde tinha ido. Depois precisou de muitos dias bebendo água corrente até conseguir fazer xixi novamente.

Gustavo Burla

Demandas

Demandas

para Zedu

Bastava chegar ao trabalho, trocar de roupa, colocar o crachá e começava: José, já enviou o memorando? José, cadê o documento? José, preciso de um texto pra ontem! José, pega isso pra mim no arquivo? José, pode me ajudar nessa mudança? José, você fez a relação que pedi? José, temos reunião às 16h. José, me passa aquela informação de ontem. José, ainda tem café na cozinha? José, semana que vem chega o programa novo. José, essa tabela precisa ser transformada em gráfico. José, ligou para a… qual o nome dela? José, conseguiu o…? José, sobre aquele… José…! José…

Um dia trocou de roupa e colocou o sobrenome no crachá. Sentou e trabalhou em paz.

Gustavo Burla

Animal de estimação

Animal de estimação

“Boa tarde, eu gostaria de um animal de estimação.”

“Veio ao lugar certo, senhor, e veja só este último gatinho. Tão esperto, e toda a família já se foi, sobrou só ele.”

“Queria um bicho diferente, mais…”

“Ali temos os cãezinhos… Oh… Tão bonitinhos…”

“Você ouviu a parte do diferente?”

“Temos peixes ali, diversos, maravilhosos.”

“Peixe não tem graça, não dá pra fazer carinho.”

“Ali temos um coala, um panda e um…”

“Não, queria algo mais…”

“Um bicho-pau? Um lagarto? Um ornitorrinco?”

“Isso existe?”

Um movimento na parede, perto do chão, chama a atenção dos dois. O comprador fica vidrado, o vendedor fica vermelho.

“Desculpe, senhor, a gente sempre cuida tanto do nosso espaço. Eu não sei como…”

“Quanto é?”

“Senhor, é uma barata.”

“Quanto custa? É exatamente o que…”

“Senhor, aquilo é uma barata!”

“É um animal, isso aqui é uma loja de animais e….”

O croque-croque do gatinho mastigando a barata suspende a discussão. Destroça sem pressa a barata que movia as antenas cada vez mais curtas dentro da boca do bichano. Engole, vira a carinha, abaixa as orelhas e encara os humanos.

“Quero o gato.”

Gustavo Burla