Category Archives: Gustavo Burla

São.

De porta em porta

De porta em porta

Quando chegou ao andar, se assustou com o sujeito sentado na porta do apartamento ao lado.

— Perdeu sua chave?

— Tava batendo na porta desde cedo, sentei pra pensar.

— Sabe que não mora ninguém aí?

— Você sabe o quanto pode haver atrás de uma porta? Sabe que bater e esperar envolve muito mais fluxos nervosos do que abrir a própria porta? Quando bate, se ela vai abrir ou não, quem vai te receber e como será incomodam as pessoas há séculos! O humor das pessoas muda. Os espaços mudam! E o mistério atrás da porta desconhecida, você consegue explicar?

— Mas não mora ninguém aí…

— É… Agora é.

O sujeito saiu pelo corredor, um olho escolhendo outra porta e o outro esperando o inconveniente entrar pela dele.

Gustavo Burla

Poço dos desejos

Poço dos desejos

Já tinha desistido de ser rico. Filho de pedreiro e de dona de casa, seu passatempo entre as folgas no comércio e a escola era a feira de domingo, onde ajudava a mãe a vender as esculturas de epóxi. Assim tocavam a vida, ajeitando mês a mês o ordenado, sem fonte dos desejos.

Nunca tinha visto uma antes de olhar a figura no livro de Geografia. Ficou se perguntando como funcionava e descobriu que a história por trás de um poço era o que mais importava para as pessoas.

O pai construiu, impermeabilizou e azulejou a estrutura, a mãe fez a cara de onde saía a água e ele contou a história por trás da bica perto do gramado onde cresceu jogando bola. No final do dia recolhia as moedas com um snorkel. Não todas, para incentivar os desejos do dia seguinte.

Gustavo Burla

A noite é uma criança

A noite é uma criança

Foram meses, que pareciam anos e eram décadas disfarçadas, sem dormir. Acordava, ninava, falava, cantava e o que mais fosse preciso até o sono calar a criança. E, depois, só ela dormia, a tensão ficava no ar.

Enfim, crianças crescem e se calam. Até que nasce a filha do vizinho de baixo.

Gustavo Burla