Estudo aplicado sobre os usos modais do verbo dar

Estudo aplicado sobre os usos modais do verbo dar

Tudo o que posso dar é minha palavra. Ou talvez sejam palavras, essas que dei pra anotar a esmo e pras quais dei de inventar de dar outros sentidos quando todo sentido já se (per)deu. Meu sono demora a dar as caras pensando que loucura é essa que deu no mundo, pensando que nó é esse que dá na cabeça, pensando nessa merda toda que tem se dado com a gente, pensando que bicho me dá de meter a palavra merda no meio de um estudo linguístico sério, mas perdão é a língua inteira que tenho pra dar. É o mesmo repetitivo pensamento que dá de frente com tudo de ruim que deu no noticiário enquanto a previsão do tempo promete mais uma vez, apesar do frio, que vai dar sol. É o mesmo repetitivo pensamento que dá voltas pelas outras voltas que a gente dava pelas ruas, no café que só dava pra (não) tomar bem rápido nos pequenos intervalos dados pelo tempo, nas pequenas pausas dadas pela vida, essa vida cá-dentro-lá-fora que nem sempre parece dar pra viver, mas que a gente segue vivendo mesmo assim. É o mesmo repetitivo pensamento que dá um curto circuito dentro da gente, que faísca nos sorrisos que poderíamos ter dado e que não demos, que cintila nos abraços que poderíamos ter dado e que não demos, que se incendeia nas palavras que poderiam ter sido dadas e que não foram durante cada conversa que (nos) dava voltas — e elas ainda dão —, sempre dando em nada e nunca dando de fato aonde deveriam dar. A não ser é claro na única confissão que dá pra fazer: de que às vezes dá uma saudade danada, de que às vezes dá um desespero tremendo, de que todo dia a única notícia que se quer dada pelos jornais é de que já dá pra gente se ver de novo. Se der. Quando der.

Táscia Souza

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