Batidinhas

Batidinhas

Ela ainda era menina quando descobriu que partezinhas de seu coração batiam em todos os lugares. Se corresse muito durante a brincadeira — como naquele momento em que deixava o esconderijo sob a cama e desabalava-se desesperada para bater as mãos no pique, tentando salvar-se antes de ser pega —, sentia o pedaço maior esmurrar mais forte o peito, enquanto uma outra porção deslocava-se até a garganta e se punha a palpitar ali, em pleno pescoço, quase arrebentando a pele mais frágil. Às vezes, se ficasse tempo demais ao sol, ou no mar, ou sem comer, ou uma combinação de todas essas três coisas (o que era mais comum naqueles dias de férias e praia), bastava chegar a noite para que uma fatiazinha de coração latejasse nas laterais da testa, bem nas têmporas, cujo nome ela só conheceria bem depois de conhecer a dor. Se topasse com o dedinho do pé na quina da mesa da cozinha, despertava o fragmento de coração que morava ali, na região mais baixa de seu corpo. E se pousasse o fura-bolo direito sobre o pulso esquerdo, os dois bocadinhos saltitavam juntos, um por dentro da veia azulada do braço e o outro bem na pontinha do dedo. 

Eram tantas lasquinhas de pulsação que percebia, a cada dia uma descoberta, que ela achava que era isso que os adultos queriam dizer quando falavam de coração partido. 

Táscia Souza

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