Abismo

Abismo

Bem antes, tinha essa rachadura no teto, você lembra? No apartamento antigo. Reta. Horizontal. Ortogonal à lateral da janela. Eu a vi pela primeira vez à noite, deitada na cama, antes de apagar a luz do abajur, e apertei seu braço numa breve aflição. Não tem perigo, você disse. Provavelmente é só na pintura. No máximo na massa corrida. Acreditei porque você me explicou que o problema é com as rachaduras diagonais, daquelas que vão da parte superior esquerda até a inferior direita (é assim mesmo ou tanto faz?), quando, mesmo por uma pequena fresta, a gente consegue ver o que há no vizinho, do lado de lá, assim como ele consegue nos ver. 

Fiquei obcecada por rachaduras diagonais. Um trincado no copo de vidro americano, transversal à borda, me dava a impressão de que fosse vazar não o café para o lado de fora, mas meus lábios para o lado de dentro, sugados pelo buraco negro com o qual a bebida quente se parecia toda vez que eu a olhava no contraluz. No asfalto recém-pavimentado da nossa rua antes de pedra, quando a chuva abriu a primeira cratera comprida que ia do nosso portão até a entrada da garagem do prédio cem metros à frente, no passeio contrário, os demais moradores reclamaram do serviço mal-feito e do descaso da prefeitura. Calada, meu cuidado era tentar passar o mais distante possível da abertura, embora meus olhos afoitos teimassem em se espichar ali para baixo, para o oposto do mundo, na tentativa de enxergar o fim de tudo, mas com medo de que o fim me enxergasse também.

Foi por isso que entrei em desespero quando a ranhura apareceu nesse pedaço de pele acima da boca, escavando um sulco quase imperceptível da lateral esquerda da columela (tive que pesquisar o nome dessa parte do nariz, senão não conseguiria explicar a você) até o cantinho dos lábios. Você disse que era impressão minha. Todas as pessoas para quem mostrei, fingindo não notar, disseram o mesmo porque: ah, você é nova demais para se preocupar com o tempo. Mas não é uma linha, você percebe? Não é expressão de nada. É uma maldita de uma rachadura diagonal que logo vai abrir uma fissura da largura de um punho pelo meu rosto inteiro, como essa que eu acabei de fazer no espelho. Só que, por ela, tudo o que vou ver do outro lado da minha cabeça é vazio. 

Táscia Souza

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